300 Mil Idosos Autistas no Brasil

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Marcos Luan

1/6/20264 min read

Até meados da década passada, o Transtorno do Espectro Autista (TEA) era amplamente percebido pelo senso comum, e até por setores da medicina, como uma "condição da infância". O foco das políticas públicas e da formação acadêmica concentrava-se quase exclusivamente no diagnóstico precoce e na intervenção infantil. No entanto, o início de 2026 consolida uma mudança de paradigma sem precedentes na história da saúde pública brasileira.

Graças ao refinamento do cruzamento de dados entre o Censo 2022 do IBGE, o Cadastro Único e os registros atualizados do Ministério da Saúde, o Brasil se depara com um número impactante: estima-se que existam hoje cerca de 300 mil pessoas com mais de 60 anos vivendo com autismo no país. Este dado não representa um "aumento" de casos, mas sim o resgate histórico de uma população que sempre existiu, mas permaneceu nas sombras da invisibilidade diagnóstica.

1. A Anatomia da Invisibilidade: Por que demoramos tanto?

A prevalência de aproximadamente 1% de autistas na terceira idade revela a existência do que especialistas denominam "geração invisível". São brasileiros que nasceram nas décadas de 1940, 1950 e 1960, épocas em que o autismo era um conceito restrito a casos de extrema gravidade ou associado incorretamente a psicoses infantis.

O Peso dos Rótulos Equivocados

Esses idosos atravessaram a vida adulta sem qualquer tipo de suporte especializado. Na ausência de um laudo, foram frequentemente rotulados como:

  • "Excêntricos" ou "Solitários": Pessoas com dificuldades na reciprocidade social que foram marginalizadas por seus traços de personalidade.

  • "Difíceis" ou "Rígidos": Indivíduos cuja necessidade de rotina e previsibilidade foi interpretada como teimosia ou mau humor.

  • Diagnósticos Errôneos: Muitos foram tratados por décadas para Transtorno de Personalidade Borderline, Bipolaridade, Depressão Crônica ou Esquizofrenia, recebendo medicações inadequadas que não endereçavam a raiz neurobiológica de seus desafios.

2. O Diagnóstico Tardio e o Fenômeno do "Efeito Cascata"

Em 2026, observa-se um fenômeno sociológico curioso: o diagnóstico de idosos tem ocorrido, em grande parte, de forma "reversa". Com a popularização da informação sobre o TEA, avós e bisavós estão chegando aos consultórios após o diagnóstico de seus netos ou bisnetos. Ao observarem as características das crianças — como a hipersensibilidade sensorial, a literalidade na fala e os interesses restritos — esses idosos identificam a si mesmos em suas trajetórias de vida.

O Recorte de Gênero e o Masking

Um dos pontos mais críticos levantados pelos dados atuais é o subdiagnóstico feminino. Mulheres idosas são as que mais sofrem com a falta de identificação. Isso ocorre devido ao masking (camuflagem social), uma estratégia exaustiva de mimetizar comportamentos neurotípicos para "se encaixar". Essas mulheres passaram 60 ou 70 anos camuflando seus traços autistas, o que frequentemente resulta em quadros de burnout autista na terceira idade, muitas vezes confundidos com demência ou declínio cognitivo senil.

3. Direitos Humanos e Acesso à Saúde

A ausência do diagnóstico na maturidade não é apenas uma questão médica; é uma lacuna de direitos fundamentais. Sem o laudo oficial, o idoso autista não goza das proteções da Lei Berenice Piana (Lei 12.764/2012), que equipara o autista à pessoa com deficiência para todos os efeitos legais.

O Trauma no Sistema de Saúde

Para um idoso autista hipersensível, o ambiente de um hospital público ou de uma clínica pode ser hostil:

  • Hipersensibilidade Auditiva: O barulho de salas de espera lotadas.

  • Hipersensibilidade Visual: Luzes fluorescentes fortes.

  • Comunicação: A dificuldade em descrever sintomas internos (interocepção) pode levar a erros médicos graves. Em 2026, a demanda por Protocolos de Atendimento Amigáveis ao Autista em hospitais geriátricos tornou-se uma urgência nacional.

4. O Impacto nas Políticas Públicas: Moradia e Cuidado

O envelhecimento da população autista exige uma reestruturação das políticas de assistência social. O questionamento "quem cuidará desse idoso quando seus pais ou irmãos falecerem?" ganha contornos dramáticos.

Demandas Emergentes:

  • Moradias Assistidas e ILPIs Adaptadas: As Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs) brasileiras não estão preparadas para a neurodivergência. É necessário criar ambientes que respeitem a rigidez de rotina e a baixa tolerância a mudanças drásticas, comuns no TEA.

  • Capacitação em Geriatria: Existe uma necessidade imediata de treinar médicos geriatras e enfermeiros para diferenciar comportamentos autistas de sintomas de Alzheimer ou Parkinson.

  • Treinamento de Cuidadores: Preparar profissionais para lidar com idosos que podem perder a fala funcional sob estresse ou que apresentam comportamentos repetitivos (stimming) como forma de regulação.

5. Envelhecimento Cognitivo e Fatores de Proteção

A ciência em 2026 também começa a desbravar como o cérebro autista envelhece. Estudos preliminares da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) sugerem que o reconhecimento da condição é, por si só, um fator de proteção.

O diagnóstico tardio traz um alívio existencial que reduz os níveis de cortisol e ansiedade. Idosos que compreendem sua neurodivergência tendem a buscar estratégias de autorregulação mais eficazes, o que pode retardar o isolamento social severo. No entanto, o risco de depressão na terceira idade para autistas sem suporte é significativamente maior do que na população geral, exigindo uma rede de apoio mental robusta.

6. O Chamado à Ação: O Censo como Ferramenta de Mudança

O número de 300 mil não deve ser lido apenas como uma estatística de saúde, mas como um chamado para uma reforma civilizatória. A inclusão, para ser legítima, deve ser um compromisso para toda a vida.

O que precisamos para 2026 e além:

  1. Campanhas de Diagnóstico Tardio: Incentivar que idosos com histórico de isolamento ou dificuldades sociais busquem avaliação.

  2. Adaptação Urbana: Cidades que considerem o idoso neurodivergente em seus planos de acessibilidade sensorial.

  3. Suporte à Família: Muitas vezes, o idoso autista é o cuidador de outro idoso, criando uma dinâmica de exaustão dupla que precisa de intervenção estatal.

Conclusão

Os dados do início de 2026 revelam que o Brasil está finalmente "enxergando" seus cidadãos mais experientes sob uma nova luz. Diagnosticar e acolher 300 mil idosos autistas é corrigir um erro histórico de omissão. Envelhecer com dignidade significa ter o direito de saber quem se é, de ser respeitado em suas particularidades sensoriais e de não ser forçado a se encaixar em um molde neurotípico após uma vida inteira de luta.

A inclusão não tem data de validade. Do diagnóstico na infância ao suporte no leito de morte, a jornada do indivíduo autista deve ser pautada pela dignidade, pela ciência e pelo respeito à diversidade humana.