Calendário TEA 2026

O Ano do "Duplo Diagnóstico" e a Visibilidade das Altas Habilidades

NOTÍCIAS

Marcos Luan

1/6/20264 min read

O cenário educacional e clínico de 2026 marca a consolidação de um conceito que, por décadas, foi subestimado ou mal compreendido: a Dupla Excepcionalidade. Este termo refere-se à ocorrência simultânea do Transtorno do Espectro Autista (TEA) e das Altas Habilidades ou Superdotação (AH/SD).

O início deste ano marca um chamado urgente para que o Brasil refine seu olhar pedagógico. Não basta mais focar apenas nos déficits ou apenas nos talentos; a complexidade do ser humano exige uma visão integrada que reconheça o potencial intelectual elevado coexistindo com os desafios sensoriais e sociais da neurodivergência.

1. O Que é a Dupla Excepcionalidade?

A dupla excepcionalidade ocorre quando um indivíduo apresenta características de duas categorias distintas de Educação Especial. No caso do TEA com Altas Habilidades, temos um aluno que possui uma arquitetura cerebral neurodivergente, mas que também demonstra uma capacidade superior em uma ou mais áreas do conhecimento humano, como matemática, música, artes visuais, sistemas lógicos ou linguística.

O Mascaramento Mútuo

O maior obstáculo para o diagnóstico em 2026 ainda é o fenômeno do mascaramento mútuo.

  • O autismo esconde a superdotação: As dificuldades de comunicação e as crises sensoriais podem fazer com que professores e psicólogos vejam apenas a "deficiência", ignorando o brilho intelectual.

  • A superdotação compensa o autismo: Um aluno altamente inteligente pode desenvolver estratégias cognitivas para camuflar suas dificuldades sociais (masking), parecendo "típico", embora viva em constante exaustão mental.

O resultado é um indivíduo que muitas vezes não recebe suporte para suas dificuldades e nem enriquecimento para seus talentos, resultando em desengajamento escolar e sofrimento psíquico.

2. A Assincronia do Desenvolvimento

Um conceito vital que ganha força nos congressos de 2026 é a assincronia. O aluno com dupla excepcionalidade não se desenvolve de forma linear. Ele pode ter a capacidade intelectual de um universitário para compreender astrofísica, mas a maturidade emocional de uma criança muito mais jovem para lidar com a frustração de um erro.

Essa discrepância gera o estereótipo perigoso de que o autista superdotado "não precisa de ajuda". Pelo contrário, o nível de suporte necessário pode ser ainda maior, pois a alta sensibilidade sensorial e emocional costuma ser proporcional à intensidade intelectual.

3. Agenda de Eventos e Formação em 2026

Para profissionais e famílias que buscam se aprofundar nessa nova fronteira da neurodiversidade, o primeiro semestre de 2026 oferece uma agenda robusta de eventos técnicos e científicos:

Jornada Nacional do Autismo (Março/2026 - Rio de Janeiro)

Este evento abrirá o ano discutindo a implementação do Novo Currículo Adaptado. O foco será como o Atendimento Educacional Especializado (AEE) pode oferecer atividades de "suplementação" para alunos que terminam as tarefas antes da turma, evitando a ociosidade que leva à desregulação.

Simpósio de Neurodiversidade e Trabalho (Maio/2026 - Online)

Organizado por coalizões de empresas líderes, este simpósio focará na nova Lei Federal 15.256/2025, que incentiva a contratação de talentos neurodivergentes. O debate será sobre como aproveitar o "hiperfoco" desses profissionais em cargos de alta complexidade técnica, garantindo adaptações sensoriais no escritório.

Congresso Internacional de Autismo e Brasil - CIAB (Setembro/2026 - Florianópolis)

O CIAB consolidou-se como o maior evento da América Latina. Em 2026, o destaque será a presença de pesquisadores internacionais discutindo a genética da superdotação no autismo e os desafios de idosos autistas que nunca tiveram seus talentos reconhecidos pela sociedade.

4. O Papel do Atendimento Educacional Especializado (AEE)

Segundo as novas diretrizes do Ministério da Educação (MEC) e do Conselho Nacional de Educação (CNE) vigentes em 2026, o AEE deve ter uma função dupla para este público.

Tradicionalmente, o AEE era visto como um local para "remediar" dificuldades. Na dupla excepcionalidade, ele assume também a função de enriquecimento curricular. Isso significa que, se um aluno autista de 8 anos já domina o conteúdo de biologia do ensino médio, a escola tem o dever legal de oferecer materiais avançados, pesquisas e projetos que desafiem seu intelecto, enquanto trabalha suas habilidades sociais de forma paralela.

5. Família e Escola: Uma Parceria de Observação

A Associação Brasileira de Superdotação (ABSD) reforça que os pais são os primeiros a notar os sinais. Em 2026, o foco está na "Identificação Multidimensional". Não basta um teste de QI; é necessário observar:

  • Interesses Intensos (Hiperfoco): Quando o interesse do autista se torna uma busca profunda e exaustiva por conhecimento especializado.

  • Aprendizado Autodidata: Crianças que aprendem a ler sozinhas ou dominam um segundo idioma apenas através de vídeos, antes mesmo de entrarem na escola.

  • Sensibilidade Ética e Moral: Uma preocupação precoce e intensa com justiça, ecologia ou problemas globais.

As escolas estão sendo orientadas a não esperar pelo laudo para começar a oferecer suporte. A intervenção precoce em ambas as áreas (talento e dificuldade) é o que previne a depressão escolar e o abandono dos estudos.

6. Desafios de Gênero e Diagnóstico

Um ponto sensível em 2026 é o diagnóstico de meninas com dupla excepcionalidade. Historicamente subnotificadas, as meninas autistas costumam ter habilidades sociais de camuflagem ainda mais refinadas que os meninos. Quando somado à alta inteligência, o autismo pode se tornar quase invisível para o sistema escolar, manifestando-se apenas através de crises de ansiedade severas em casa ou transtornos alimentares. A ciência em 2026 pede um olhar atento às meninas que são "perfeccionistas silenciosas" e apresentam alto desempenho acadêmico às custas de sofrimento emocional interno.

7. Inclusão como Investimento em Potencial

O ano de 2026 marca o fim da visão de "inclusão por caridade". A sociedade brasileira começa a entender que incluir o autista superdotado é um investimento estratégico. Esses indivíduos, quando apoiados em suas necessidades e desafiados em suas capacidades, tornam-se os cientistas, artistas e inovadores que resolvem problemas complexos da nossa sociedade.

A meta para este ano é clara: nenhum talento deve ser desperdiçado por causa de um diagnóstico.

Conclusão: Um Novo Olhar Além do Diagnóstico

Entender a dupla excepcionalidade é abraçar a complexidade da condição humana. Em 2026, o sucesso de uma escola não é mais medido apenas pelo quanto ela "ajuda o aluno a se adaptar", mas pelo quanto ela permite que a singularidade desse aluno floresça. A jornada rumo a uma educação verdadeiramente inclusiva passa por reconhecer que o espectro autista é vasto e que, dentro dele, residem mentes extraordinárias esperando por uma oportunidade de serem vistas por inteiro.