Sinais de Autismo em Diferentes Idades
Do Berço à Vida Adulta
NOTÍCIAS
Marcos Luan
1/7/20264 min read


A identificação precoce do Transtorno do Espectro Autista (TEA) é, reconhecidamente, o fator de maior impacto na qualidade de vida do indivíduo. O cérebro humano possui uma capacidade extraordinária de adaptação nos primeiros anos de vida, fenômeno conhecido como neuroplasticidade. Quanto mais cedo os sinais são notados e as intervenções iniciadas, maiores são as chances de a criança desenvolver habilidades de comunicação, autonomia e socialização.
No entanto, por ser um espectro, os sinais não são universais e podem se manifestar de forma sutil ou tardia. Compreender o que observar em cada fase é essencial para pais, educadores e profissionais de saúde.
1. O Primeiro Ano de Vida e a Primeira Infância (Até 24 meses)
Nos bebês, os sinais de autismo costumam estar relacionados à ausência de comportamentos esperados, mais do que à presença de comportamentos estranhos. É o que chamamos de "marcos do desenvolvimento social".
O "Olhar que não encontra": Um dos sinais mais precoces é a dificuldade em sustentar o contato visual. Durante a amamentação ou trocas de fralda, o bebê pode parecer olhar "através" da mãe ou preferir fixar o olhar em objetos inanimados (como o ventilador de teto) em vez de rostos humanos.
A Ausência do Sorriso Social: Por volta dos 6 meses, a maioria dos bebês responde com um sorriso quando alguém sorri para eles. No autismo, esse retorno emocional pode ser escasso ou inexistente.
Resposta ao Nome: Até os 12 meses, espera-se que a criança atenda ou vire a cabeça ao ser chamada pelo nome. Muitas famílias de autistas relatam que, inicialmente, chegaram a suspeitar de surdez, pois a criança parecia ignorar chamados e sons ambientais, embora reagisse a ruídos de seu interesse (como o som de um desenho animado).
Gestos Comunicativos: A ausência de gestos como apontar para mostrar algo ("Olha o avião!"), dar tchau ou estender os braços para pedir colo aos 14 meses é um forte sinal de alerta.
De acordo com o CDC (Centers for Disease Control and Prevention), o acompanhamento desses marcos é a melhor forma de garantir que a criança receba o suporte necessário o mais rápido possível.
2. A Idade Pré-Escolar e Escolar (3 a 6 anos)
Nesta fase, as exigências sociais aumentam, pois a criança passa a conviver com pares na escola. É aqui que os comportamentos repetitivos e as dificuldades de interação tornam-se mais evidentes.
Brincar Atípico: Em vez de usar os brinquedos para o fim a que se destinam (dar comida para a boneca, fazer o carrinho correr), a criança pode focar em partes do objeto. Ela pode passar minutos girando a roda do carrinho ou alinhando os blocos por cor, sem o componente criativo do "faz de conta".
Ecolalia: É a repetição de falas, frases ou sons. A criança pode repetir exatamente o que lhe foi perguntado ("Você quer água?") em vez de responder, ou recitar diálogos inteiros de filmes fora de contexto.
Rigidez e Rotina: A criança pode ter crises intensas se o caminho para a escola for alterado ou se a comida for servida em um prato de cor diferente.
Sensibilidade Sensorial: Este é um período de grandes descobertas sensoriais. O autista pode apresentar hipersensibilidade (tapar os ouvidos para sons comuns, recusar roupas com etiquetas) ou hipossensibilidade (não demonstrar dor ao cair ou buscar estímulos intensos, como girar em torno do próprio eixo).
A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) destaca que atrasos na fala nesta idade devem ser sempre investigados, sem a espera do famoso "tempo de cada criança".
3. Adolescência: Novos Desafios Sociais
Muitas vezes, indivíduos com autismo de nível 1 (antigamente chamado de Asperger) só são diagnosticados na adolescência, quando as nuances sociais (gírias, ironias, paqueras) tornam-se mais complexas.
Dificuldade com o Não-Verbal: O adolescente pode não perceber quando alguém está entediado com o assunto que ele está falando ou não entender expressões faciais de reprovação.
Interesses Restritos (Hiperfoco): O jovem pode ter um conhecimento enciclopédico sobre um tema específico (astronomia, sistemas de metrô, programação) e ter dificuldade em conversar sobre qualquer outro assunto.
Isolamento Social: Não por desejo de ficar sozinho, mas por não saber "como" se integrar aos grupos, o que pode levar a quadros de ansiedade e depressão.
4. O Autismo na Vida Adulta
Muitos adultos descobrem-se no espectro após o diagnóstico de seus próprios filhos. Os sinais na vida adulta são frequentemente mascarados por técnicas de "masking" (esforço consciente para imitar comportamentos sociais e "parecer normal").
Exaustão Social: Sentir-se extremamente esgotado após interações sociais simples, como uma reunião de trabalho ou um jantar.
Pensamento Literal: Dificuldade em compreender sarcasmo, metáforas ou "ler as entrelinhas" em e-mails e conversas.
Necessidade de Planejamento: Grande desconforto com imprevistos e necessidade de saber exatamente o que vai acontecer em cada evento social.
Sensibilidade Sensorial Persistente: Manter aversão a certos tipos de iluminação ou tecidos, ou ser incapaz de ignorar ruídos de fundo (como o barulho do ar-condicionado) que outros parecem nem notar.
Organizações como a Autistic Self Advocacy Network (ASAN) ressaltam que o diagnóstico na vida adulta é libertador, pois permite que o indivíduo entenda sua própria jornada e pare de se culpar por não se ajustar aos padrões neurotípicos.
5. A Importância do Rastreamento Profissional
É vital entender que apresentar um ou dois desses sinais não confirma o TEA. O diagnóstico deve ser feito por profissionais qualificados (neuropediatras ou psiquiatras). No Brasil, o Questionário M-CHAT-R/F é uma ferramenta gratuita e validada para rastrear sinais em crianças de 16 a 30 meses, devendo ser aplicado em todas as consultas de rotina no pediatra.
Conclusão
Os sinais do autismo mudam de "cara" conforme a pessoa cresce, mas a essência do transtorno — a forma diferenciada de processar informações sociais e sensoriais — permanece. Estar atento a esses sinais em todas as idades é o primeiro passo para promover a inclusão, o respeito e o suporte adequado. O autismo não é uma barreira intransponível, mas uma característica que, quando compreendida, permite que o indivíduo desenvolva todo o seu potencial.
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